segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Mais um ótimo texto ....

... da série "não dava para não postar" !!



Vozinha

QUANDO VEJO um destes sujeitos que tentam disfarçar a careca esticando ralas melenas por cima do cocuruto, de orelha a orelha, me ponho a pensar: será que o infeliz não percebe o fracasso da gambiarra? Não se dá conta de que a lustrosa calva está tão escondida quanto o sol atrás de uma peneira?

Não, ele não percebe, pois o "comb-over", como os americanos chamam esse equívoco estético (ou "sobrepenteado", numa descabelada tradução), não é o tipo de mau passo que se dá da noite pro dia, mas o resultado de um lento processo; e se é verdade que devagar se vai ao longe, também é certo que a evolução gradual dificulta a compreensão de que se foi longe demais. Numa bela tarde, no fim da adolescência, o indivíduo faz um meneio com a cabeça, jogando a franja por cima de uma entrada incipiente -nem desconfia que, duas décadas mais tarde, estará andando por aí com uma espécie de persiana colada à cachola.

Solidarizei-me com a turma do puxadinho capilar ao ser acusado, semana passada, de ser praticante de uma outra modalidade de cega degenerescência, tão comum quanto o "comb-over" e, talvez, ainda mais nefasta. Estava num táxi, ao lado do Paulão, colega de trabalho, falando ao celular com minha mulher. Assim que desliguei, Paulão soltou, com indisfarçável sarcasmo: "Nossa, Antonio, nunca imaginei que você fizesse 'vozinha'". Meu mundo ruiu.

Até então, tinha cá para mim que o tom utilizado para falar com meu amor era absolutamente republicano. Simpático, sim, doce, claro, mas jamais, jamais, jamais descambando para algo que pudesse ser enquadrado como "vozinha" -aquele timbre meloso e infantil que alguns casais adotam, como se falassem com ursos de pelúcia.

Arrogante, cria-me imune a tal comportamento, coisa de gente que grita apelidos íntimos na seção de laticínios do supermercado, que se chama de "pai" e "mãe" -e nem sempre na presença dos filhos-, que espreme cravos em logradouros públicos. Ao que parece, contudo, a "vozinha" é como o "comb-over", lenta e insidiosa: você pode estar usando e não sabe. Numa bela noite, no começo da relação, o indivíduo diz um sóbrio "eu te amo", ao despedir-se da namorada -nem desconfia que, duas décadas mais tarde, estará no elevador da firma, falando em alto e bom som: "Titchucão num qué disligá! Diliga voxê, Titchuquinha!".

Defendi-me atacando. Como meu colega podia fazer tamanha acusação sem provas cabais?! Com um sorriso no rosto, Paulão apresentou as evidências: disse que eu havia atendido o celular falando "Oi, Coisica linda!" e, por seis vezes, teria usado o apelido "Pequenina". Então, dando a estocada final, perguntou: "E ela? Te chama de quê?". Fiz uso do direito constitucional de não apresentar informações que possam ser usadas contra mim e permaneci calado.

Ontem, tive uma conversa séria com minha mulher. Temos que parar com isso. Ela, contudo, jura que nosso tom não configura uma situação de "vozinha" e que há um enorme fosso entre o carinhoso e o debiloide. Não sei, não. Também os carecas, diante do espelho, todas as manhãs, devem repetir mantras de autoengano, enquanto puxam as costeletas para o alto e as encharcam de laquê. É ou não é, Tichuquinha linda do Titchucão?


Antonio Prata para a Folha de São Paulo


domingo, 11 de setembro de 2011

"Solidão Contente"


Mais um da série "não dava para não postar" !!

Solidão Contente

O que as pessoas fazem quando estão consigo mesmas
*por Ivan Martins

Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre solidão feminina com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar consigo mesmas.
- Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa, disse a prima. Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói. Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos.

Repasse para suas amigas, especialmente para as que não sabem fazer sua "solidão contente!" e para seus amigos entenderem e valorizarem a riqueza interior de certas mulheres comparada aos homens.

*Ivan Martins é editor-executivo de ÉPOCA